Um mapa da jornada do cliente é uma forma visual de entender como uma pessoa vivencia a sua marca — desde o primeiro momento em que percebe um problema até o ponto em que compra, utiliza e (idealmente) recomenda o que você oferece. O valor não está apenas em listar etapas como “visitou o site” ou “comprou o produto”. Um bom mapa revela o porquê por trás das decisões: o que o cliente está tentando alcançar, com o que ele se preocupa, onde ele fica travado e o que, por fim, o faz avançar.
Ele também ajuda a esclarecer uma confusão comum: a jornada de compra (buyer’s journey) é o caminho geral que as pessoas seguem (consciência → consideração → decisão). Já a jornada do cliente (customer journey) é o caminho específico que elas percorrem com a sua empresa — seus anúncios, suas páginas de destino, seus e-mails, sua página de preços, seu checkout, seu suporte. Mapear essa realidade específica é o que torna as melhorias práticas e acionáveis.
Por que mapear a jornada muda os resultados do negócio
As jornadas do cliente raramente são lineares. As pessoas alternam entre canais, comparam concorrentes, leem avaliações, abandonam carrinhos, voltam mais tarde e fazem perguntas no último instante. Cada interação (cada “ponto de contato”) influencia a confiança e o impulso de seguir adiante. O mapeamento é importante porque ajuda as equipes a parar de “chutar” e começar a desenhar a experiência de forma intencional — reduzindo atritos, aumentando conversões e fortalecendo retenção e fidelidade.
Quando você mapeia bem a jornada, consegue enxergar:
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Onde as pessoas desistem e o que provoca isso
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Quais momentos geram confiança (ou dúvidas)
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O que os clientes precisam em cada etapa vs. o que a empresa está empurrando
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Quais melhorias trazem maior impacto mais rapidamente
Os blocos fundamentais de um Mapa da Jornada do Cliente
Um mapa prático geralmente inclui cinco camadas principais. Quando combinadas, elas transformam o mapa em uma ferramenta de decisão — não apenas um desenho.
As etapas da jornada
É a “coluna” do mapa: as fases gerais pelas quais o cliente passa. Muitas equipes começam com Consciência (Awareness), Consideração (Consideration) e Decisão (Decision), e depois estendem para Experiência (uso/onboarding) e Defesa/Indicação (Advocacy: renovações, indicações, avaliações). O melhor modelo de etapas é aquele que reflete como seus clientes realmente se comportam.
Pontos de contato (touchpoints)
Pontos de contato são todos os momentos em que o cliente interage com a sua empresa: anúncios, redes sociais, landing pages, páginas de produto, e-mails, checkout, mensagens de confirmação, chat de suporte, sites de avaliação e até envio e entrega. Se pode influenciar a percepção, deve entrar no mapa.
Ações do cliente
O que o cliente faz em cada etapa: buscar termos, ler comparativos, visitar a página de preços várias vezes, assistir a demos, iniciar um teste, abandonar carrinho, falar com o suporte etc. As ações mostram esforço e intenção — e muitas vezes sinalizam atritos ocultos.
Emoções e mentalidade
Essa é a parte que muitas equipes ignoram — e frequentemente é o que diferencia um mapa “bonito” de um mapa útil. Clientes sentem incerteza, urgência, entusiasmo, ceticismo, alívio, frustração. Mapear altos e baixos emocionais ajuda a priorizar: corrigir primeiro os momentos em que o atrito é mais caro.
Oportunidades e soluções
Um mapa deve levar a ações. Para cada ponto de dor, registre uma ideia de melhoria: simplificar o checkout, adicionar opções de pagamento, reduzir tempo de carregamento, deixar o texto mais claro, melhorar a FAQ, ajustar e-mails de onboarding, incluir sinais de confiança, aprimorar processos de suporte. Isso transforma insights em um plano de execução.
Os dados de que você precisa para mapear a realidade (e não suposições)
Mapas falham quando são construídos a partir de opiniões internas. Os mais úteis são sustentados por dois tipos de dados — e a combinação deles é o que gera clareza.
O que os clientes dizem (dados solicitados)
Inclui pesquisas, entrevistas, feedbacks NPS/CSAT e perguntas diretas sobre o que ajudou ou bloqueou a decisão. O ideal é aprofundar emoções e atritos: não apenas o que clicaram, mas o que gerou confiança ou hesitação.
Como fortalecer esses dados:
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Entrevistar compradores recentes e perguntar o que quase os impediu
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Pesquisar quem não comprou e perguntar onde a experiência “quebrou”
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Incluir perguntas “por quê” em pesquisas pós-compra (drivers de confiança, confusões)
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Usar enquetes rápidas para sinais iniciais e validar depois com entrevistas
O que os clientes fazem (dados não solicitados)
São dados comportamentais: caminhos de navegação, taxa de rejeição, profundidade de scroll, abandono no checkout, aberturas/cliques de e-mails, logs do suporte, tempo de resolução, reviews e menções em redes sociais. Eles mostram o comportamento real em escala.
Os melhores insights geralmente vêm da combinação:
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Entrevista diz “adorei”, mas analytics mostra visitas repetidas à página de preços → ainda há dúvida
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CSAT alto, mas tempo de resolução longo → o suporte parece lento
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Produto elogiado, mas abandono na etapa de frete → transparência de custos é o problema
Como criar um Mapa da Jornada do Cliente que a equipe realmente use
Comece com um objetivo claro
Defina a pergunta específica que o mapa precisa responder. Exemplos:
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Por que os clientes abandonam no checkout?
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Por que usuários de teste não ativam valor na primeira semana?
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O que impede renovações no sexto mês?
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Quais etapas geram mais incerteza antes da compra?
Um mapa focado gera ações focadas.
Escolha uma persona e um cenário
Um mapa acompanha um tipo de cliente com um objetivo específico. Mapear “todo mundo” cria ruído. Comece pela persona mais comum ou mais valiosa e um cenário (primeira compra, onboarding, cancelamento, upgrade). Amplie depois.
Faça o inventário de pontos de contato em todos os canais
Liste as interações possíveis em:
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Busca e conteúdo
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Anúncios pagos e redes sociais
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Landing pages e páginas de produto
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Fluxos de e-mail (boas-vindas, nutrição, recuperação de carrinho, onboarding)
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Chamadas de vendas ou demos (se aplicável)
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Suporte e autoatendimento
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Pós-compra (entrega, configuração, devoluções)
Depois valide com dados e relatos reais.
Percorra a jornada você mesmo
Faça a experiência como um cliente: pesquise palavras-chave, clique em anúncios, cadastre-se, tente comprar, abra e-mails, acione o suporte. Esse “audit de empatia” revela problemas sutis que os dados nem sempre mostram: texto confuso, lentidão, falta de segurança, próximos passos pouco claros.
Analise padrões e identifique gargalos
Procure:
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Pontos de abandono (onde as jornadas terminam)
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Loops (ações repetidas, como voltar várias vezes à página de preços)
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Atritos (navegação confusa, etapas demais, falta de confiança)
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Quedas emocionais (dúvida, frustração)
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Pontos positivos (momentos que geram confiança e satisfação)
Converta cada insight em ações priorizadas.
Trate o mapa como um documento vivo
O comportamento do cliente muda com atualizações, concorrência, preços e mercado. Revise mensal ou trimestralmente e atualize após lançamentos ou mudanças no funil.
Quatro tipos de mapas de jornada e quando usar
Mapa do estado atual (current-state)
Mostra como a experiência é hoje — ótimo para identificar atritos e ganhos rápidos.
Mapa “um dia na vida” (day-in-the-life)
Mostra o que o cliente faz no dia a dia (com ou sem seu produto) — ótimo para descobrir necessidades não atendidas e oportunidades de posicionamento.
Mapa do estado futuro (future-state)
Desenha a experiência ideal — ótimo para alinhar equipes em uma visão e planejar melhorias.
Blueprint de serviço (service blueprint)
Inclui operações de bastidores (pessoas, processos, sistemas, políticas) que criam a experiência — ótimo para corrigir causas raiz.
Boas práticas para tornar o mapa mais poderoso
Use a linguagem do cliente, não jargão interno
Crie um banco de linguagem com reviews, chats, ligações e redes sociais. Reaplique essa linguagem nas páginas, e-mails e interface para reduzir atrito e aumentar identificação.
Mapeie experiência e esforço
Se o cliente precisa fazer demais (cliques, campos, decisões), isso aparece em ações repetidas, sessões longas e abandonos. Meça esforço além de satisfação.
Desenhe confiança nos momentos-chave
Conversões raramente falham por um único grande motivo; falham porque a confiança não foi construída. Reforce:
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Antes dos preços (clareza de valor)
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Na página de preços (o que inclui, comparativos, FAQs)
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No checkout (segurança, reembolso, frete, pagamentos)
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Após a compra (confirmação, próximos passos, acesso ao suporte)
Defina responsáveis por ponto de contato
O mapa vira operação quando cada touchpoint tem um dono (marketing, produto, vendas, suporte) e cada problema vira um plano de melhoria com prazo.
Atritos comuns e soluções práticas
Abandono no checkout
Causas: custos ocultos, poucos meios de pagamento, lentidão, formulários confusos, pouca confiança. Soluções: transparência de preço mais cedo, performance, formulários mais simples, checkout como convidado, mais pagamentos, política de devolução visível, sinais de segurança.
“Interessado, mas não compra”
Causas: diferenciação fraca, falta de prova, confusão de preço, pouca urgência, promessa do anúncio não bate com a landing. Soluções: posicionamento mais forte, clareza de “para quem”, comparativos, reviews/cases, consistência, redução de risco (teste/garantia).
Churn cedo após a compra
Causas: onboarding fraco, não chegam ao valor rapidamente, suporte lento, complexidade. Soluções: onboarding guiado, e-mails por marcos, checklists no app, suporte proativo, caminho simples para o “primeiro sucesso”.
Transformando o mapa em um motor de crescimento
Um mapa entrega valor quando orienta decisões:
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Priorizar experimentos (A/B tests, ajustes de UX, sequências de e-mail)
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Alinhar times com a experiência real do cliente
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Medir progresso (abandono, time-to-first-value, satisfação, retenção)
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Identificar “momentos que importam” e desenhá-los intencionalmente
Quando o mapa reflete a realidade — o que o cliente faz e sente — você ganha um método repetível para reduzir atrito, construir confiança e melhorar a experiência de ponta a ponta.

